Sábado, 21 de Julho de 2007
Paisagens da memoria

Paisagens da memoria

 

 A lareira acesa, a caruma na mão a arder, a rodar no ar entre os dedos.

O círculo que fazia era lindo.

O Irmão mais velho que deitava as culpas das asneiras para o mais novo.

As primas com que brincava.

A torre de lama que construí

Os campos verdejantes, a apanha do milho, a descamisada, as cerejas grandes e saborosas, os pêssegos e os figos precoces do meu avô.

O Correr pelos campos completamente livre.

A festa do Senhor dos Aflitos.

O garrafão de vinho que bebi inteiro, as arvores a rodar, o chão que fugia debaixo dos pés.

Os cogumelos que apanhava na quinta do meu avô, os pinheiros, os carvalhos, as videiras, o fazer do vinho.

A ribeira de água cristalina, linda de viver, o moinho onde se moía a farinha, o moleiro, o debulhador do milho, as cascatas de água na Ribeira.

A minha avó a fazer o pão, no forno que havia na parede dentro da casa, o pão de azeite com açúcar, espectacular. Tirar água do tanque com canos de aboboreira

A mina onde íamos buscar água para a rega dos campos, o cão que para mim era um burro, castanhas, uvas a serra em frente.

 O tira Boinas.
O meu tio  Hegidio,carpinteiro, principalmente tanoeiro, para mim,o petas
O tira boinas era o Homem da debulhadora, ficou-me na memória por ser o tipo que mal me via, me roubava a boina, a coisa que eu mais gostava, era uma boina basca, preta de que me era insuportável separar, assim quando o tira boinas aparecia, para mim era como se o diabo surgisse de repente à minha frente surgido das profundezas do inferno. O tira  boinas  transformava-se assim no monstro mais horrendo da minha infância. Monstrengo  da minha existência , de quem fugia a   sete pés e que me perseguia até nos sonhos . Sonhos sonhados na noite de breu , nos pesadelos, em que me sentia cair a uma velocidade estonteante  até que acordava aos gritos, a um metro do fundo do poço.

O tio Hegidio era o tio fantástico  que, transformava as arvores em pipas para o vinho enquanto o diabo esfregava um olho , plaina , bigorna , malho esquadro como únicas ferramentas e o fogo  que usava como magia .

Aquilo para mim era autentica magia, ficava ali a olhar dias e dias seguidos fascinado com aquela maravilha.

 Assistia ao descascar do tronco da arvore, e via com o desenrolar do tempo surgirem as aduelas que depois se encostavam umas ás outras envolvidas em rodas de ferro que entretanto haviam sido construídas e quando todas encaixavam milimetricamente, então a magia do Fogo fazia o ajuste final. E de tal modo era magico que, quando cheias não pingava nada.  A perfeição em si mesma executada por um Homem simples mas cuja sabedoria me marcou para sempre.

Era como tornar possível o impossível , mas era também o tio sensível que contava historias que me faziam transportar para as paisagens mais belas da minha existência

Era, na caso do petas que, se comia o melhor naco de presunto de Maçãs de dona Maria e das sete vilas em redor que , era o espaço mais longínquo que para mim existia.

 

       

A partida

 

 Algures no tempo o familiar deixa de o ser, outra vida outro sitio outro estar.

Roubado das coisas simples, das paisagens queridas, das paixões, infantis, outros medos outros monstros outros tira boinas surgem do nada.

Acordar e não encontrar o familiar mas um novo lugar onde não existe nada de conhecido, partir para outro mundo, distante de tudo.

Abro os olhos e não encontro, procuro, procuro mas não encontro em lado nenhum, nem o cão que era burro, nem a minha torre de barro nem a minha ribeira querida, olho e apenas vejo um tira boinas em todas as esquinas.

Nem o petas, nem a sua magia nem as suas historias simples, nada, apenas o vazio

 Confusão na minha mente, é como se de repente nos tele- transportássemos para uma mundo de ficção cientifica. Onde toda a paisagem muda, olhas e não encontras o antigo o conhecido, nada de nada à tua volta, procuras e nada de familiar consegues encontrar

Paisagem do fim do mundo. É a única coisa que consegues encontrar.

Construir de novo outras imagens em que ancorar a existência outras memórias, que não é possível sobrepor ás primeiras, confusão de imagens, ir ou ficar gostar do novo ou odiar.

 Novo reencontro com o mundo, novos amigos, vão surgindo, mas existe sempre uma nostalgia que é impossível não sentir.

Entrar num mundo que não é nosso, a necessidade de outra identidade, necessidade de impor de novo a existência.

Viver entre dois mundos e em lugar nenhum.

 

  

 

 

  

 

 

   

 

 

 

publicado por sociolocaminhar às 02:19
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2 comentários:
De Lua de Sol a 21 de Julho de 2007 às 15:42
Os caminhos repletos de amoras, daquelas que apetece comer até a avó dizer que vão dar dores de barriga.
A história da senhora que ia a passar com uma burra veio um raio cortou-lhe o carrapito e a cabeça do pobre animal.
O leite acabado de sair da vaca, que, por sua vez, parecia saída de um anúncio da televisão, preta e branca às malhas.
As alheiras e os salpicões pendurados no tecto da cozinha. De uma cozinha de madeira rústica, pedra cantaria e escanos perto da lareira.
A adega, com muitos garrafões de vinho tinto, bagaço e jeropiga e várias sacas de batatas.
As galinhas e os porcos a passearem em perfeita harmonia.
Os banhos na pequena ribeira, os duches na pequena cascata.
As tias bisavós que já não andam por lá...
Os primos que eram pequenos e agora são pais...
A família das distâncias, das férias, do coração e do sangue.
A poeira, o cheiro a terra seca e encalorada .
A lama, o cheiro a terra molhada.
Paisagens da memória que existe por terras do Tâmega...

É bom ter memória. É melhor ainda que a memória tenha paisagens!
De sociolocaminhar a 29 de Julho de 2007 às 16:25
Só caminhando através das memorias , construimos um presente mais brilhante e projectamos o que queremos do futuro .
São as memorias da infância que nos permitem sonhar, no Hoje o que projectamos para amanhã.
Que sejam belas todas as imagens do passado!...
É pois grande a nossa missão deixar aos que nascem hoje algo para alicerçar o Sempre!...

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