Sexta-feira, 29 de Junho de 2007
Elites e desigaldades sociais em portugal
Elites e desigualdades sociais em Portugal
Elísio Estanque
[26-04-2006] | 7 comentários
Pode dizer-se que o princípio da ?meritocracia? que as sociedades ocidentais tanto invocam, ainda não funciona ou funciona escassamente em Portugal. Em vez disso, funciona a chamada ?cunha? e uma mentalidade algo anacrónica, marcada por traços de servilismo e pelo medo do poder.

Como sabemos, com a institucionalização democrática (1974) e a entrada na Comunidade Europeia (1986) Portugal iniciou uma nova etapa na via da modernização do país, procurando ao mesmo tempo aproximar-se dos padrões europeus de desenvolvimento e reduzir as gritantes desigualdades e injustiças sociais para que as nossas elites nos remeteram ao longo dos séculos. Com o fim do Estado Novo e a integração no pelotão dos países desenvolvidos da Europa teremos nós conseguido reduzir substancialmente essas desigualdades? Haverá hoje mais igualdade de oportunidades? Quais os principais contornos do actual processo de mudança social no que diz respeito à estratificação social e à renovação das elites na sociedade portuguesa?
Ao longo do século XX assistiu-se nas sociedades industrializadas a uma evolução da estrutura das classes sociais em que, em vez dos muito poucos no topo e a esmagadora maioria do povo na base, cresceram a pouco e pouco as camadas intermédias. No caso português estas alterações estruturais verificaram-se apenas a partir da fase final do salazarismo, e sobretudo após a Revolução do 25 de Abril de 1974. Até então, a burguesia agrária e alguns sectores protegidos pelo Estado Novo (por exemplo, o clero, as forças armadas e os responsáveis políticos do regime) monopolizavam todo o prestígio, poder e riqueza. A industrialização expandiu-se escassa e tardiamente e, por isso, o crescimento das classes trabalhadoras urbanas ? o operariado e mais tarde as camadas ligadas ao terciário ? só nos anos 70 tiveram o seu primeiro grande impulso em Portugal. Com a democracia, a classe média urbana avançou rapidamente ? apesar de estatisticamente ser ainda débil ?, associada ao crescimento do Estado Providência, ao mesmo tempo que, a partir de finais dessa década, começou a notar-se uma tendência de estagnação (ou mesmo redução, embora lenta) do operariado industrial, a qual se tem acentuado nos últimos anos.
Porém, este movimento de recomposição não significou uma aproximação real entre o topo e a base da pirâmide social. Pelo contrário: embora os trabalhadores, e a classe baixa em geral, melhorassem em termos reais as suas condições de vida, se compararmos a situação actual com a generalizada miséria de há 30 anos, o certo é que as elites ? os sectores mais privilegiados da classe alta ? também subiram e em muitos casos distanciaram-se ainda mais dos níveis de vida das classes média e baixa. Cresce a ?classe média?, mas ao mesmo tempo torna-se internamente diferenciada e cada vez mais instável. Uns estratos sobem outros descem e proletarizam-se, enquanto a classe trabalhadora manual luta desesperadamente para se manter ?incluída?, isto é, tenta defender o emprego. A importância da classe média, em Portugal, mede-se mais pelo seu papel enquanto referência simbólica no imaginário colectivo, do que por ser um segmento social consistente e dotado de índices elevados de bem-estar. Caracteriza-se por ser frágil e por ser cada vez mais instável e internamente segmentada.
Há muito que as ciências sociais observaram na vida social moderna a força do impulso que leva os indivíduos a procurar a diferenciação. Diferenciação conduzida individualmente mas suportada por identificações colectivas com sectores sociais particulares. Sobretudo aqueles que conseguiram ?descolar? da condição mais baixa esforçam-se por obter para si e para os seus descendentes uma posição (estatuto) de privilégio. Isto acontece sobretudo entre as camadas privilegiadas das classes média e alta. É certo que o nível educacional que se consegue alcançar (o diploma) constitui hoje um factor decisivo, que favorece a mobilidade social. Mas, só aparentemente o título académico é um factor nivelador. As pessoas oriundas de diferentes origens sociais, quando conseguem frequentar as mesmas universidades e os mesmos programas de mestrado ou doutoramento (por exemplo), partilham interesses intelectuais comuns, e tudo isso facilita a mobilidade social ascendente, nomeadamente através de casamentos interclassistas. Porém, essa abertura das fronteiras de classe não é generalizável. O próprio acesso aos diplomas académicos mais elevados e exigentes obedece também a uma lógica selectiva. Logo, é fortemente condicionado pela classe de nascença (especialmente pelo volume de recursos económicos e educacionais dos próprios pais). Os graus de licenciatura, por exemplo, vêm perdendo valor distintivo à medida que o título de ?Dr? se banaliza. A tendência será para que as famílias das elites pressionem e criem condições para que os seus filhos alcancem graus académicos mais avançados e frequentem escolas mais exigentes (e mais caras!). Esta é uma forma de criar novas e sucessivas barreiras, de modo a que atravessá-las seja sempre mais difícil, pois, os critérios de selecção pautam-se pela obediência aos valores definidos pelas próprias elites e adequados aos seus interesses específicos. Criam-se, assim, espaços e estilos de vida restritos e exclusivos, que se fecham aos que estão de fora: em especial àqueles que ? sendo embora parte da classe média ? têm raízes nas classes mais baixas. De facto, quanto mais nos aproximamos dos estratos sociais do topo mais difícil se torna aceder ao escalão seguinte. Ou seja, o crivo da selectividade vai-se apertando à medida que subimos cada degrau da hierarquia da estratificação.
Segundo estudos recentes do Eurostat e do PNUD (Nações Unidas), Portugal é dos países europeus onde a desigualdade social é maior. Além disso, a diferença entre a camada mais rica e a mais pobre tem vindo a aumentar. Em 1995 a diferença era de 7,4 vezes maior rendimento para os 20% mais ricos (em comparação com os 20% mais pobres); em 2000 baixou para um diferencial de 6,4 vezes; e em 2003 voltou a agravar-se para 7,4 vezes a favor dos mais ricos. Os elevados valores da desigualdade (medida pelo índice de Gini), colocam Portugal próximo de países como a Tanzânia e Moçambique, além de que cerca de 20% da população vive ainda no limiar da pobreza, aumentado as bolsas de exclusão, a precariedade no emprego e o sobre-endividamento das famílias.
Assim, pode dizer-se que o princípio da ?meritocracia? que as sociedades ocidentais tanto invocam, ainda não funciona ou funciona escassamente em Portugal. Em vez disso, funciona a chamada ?cunha? e uma mentalidade algo anacrónica, marcada por traços de servilismo e pelo medo do poder. Daí deriva também a falta de autonomia e de sentido de risco dos portugueses, o que contribui para que os nossos níveis de desenvolvimento e de competitividade sejam ainda tão incipientes em comparação com os países europeus mais avançados. Estas tendências encontram-se, por assim dizer, inscritas no ?código genético? da nossa própria cultura e história. Mas é fundamental não esquecer que a modernização do país exige políticas em que o esforço de desenvolvimento e o aumento da competitividade tenham como contraponto o persistente combate às desigualdades e injustiças sociais.

Jornal «Campeão das Províncias», 27/04/2006
publicado por sociolocaminhar às 02:47
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Lua de Sol a 29 de Junho de 2007 às 03:43
Passei por alto quase todos os posts. Concordo com a sua "perplexidade".Queria só acrescentar umas coisitas. É verdade que a diferença entre classes é cada vez maior, só não vê quem não quer. E que classe média? Sim, que classe média temos? Para ser franca, provavelmente, sou catalogada como pertencendo a tal mas já quase que não me vejo lá inserida.Chamamos pobres aos miseráveis e classe média aos pobres. Porque a verdadeira classe média é aquilo a que agora quase denominamos como classe média alta. Basta ter tecto, odenado pouco acima do salário mínimo e habilitações - de preferência superiores - que passamos a pertencer à classe média. Mas contamos cada vez mais os tostões ao fim do mês, se tivermos mais que um filho dificilmente o poderemos colocar numa escola privada, arrumamos o carro quando se acabou o dinheiro para a gasolina... A classe "média" vive de aparências, porque, na realidade, já é quase pobre e a média alta é que tem regalias de média. Os pobres, para mim, são miseráveis. Não sei como se pode viver com este salário mínimo em Lisboa, por exemplo, onde uma renda de casa é muito mais do que essa ninharia, quanto mais comer. Só gostava de saber porque ninguém se mexe, de todas as vezes que nos mandam apertar o cinto mas estipulam odenados de deputados que são um gozo para o povo (fora as despesas de representação), de cada vez que fecham maternidades e urgências (quando este País precisa urgentemente de gente!); de cada vez que dão aumentos de 1,5% e aumentam as mesmas coisas 3% três vezes num ano... Realmente, só falta matarem-nos e nós deixarmos. Deu-me vontade de rir, quando o Sòcrateshá uns tempos falou nos benefícios dos PPR's... Mas quem os faz?! A classe "média" como eu não é de certeza! O ministro na China é que disse a verdade! Saiu-lhe. Outra coisa, essas novas leis das flexibilidades etc.. Será que não vêem que não se podem aplicar aos portugueses que tudo o que ganham gastam, que são muito diferentes dos nórdicos ou dos canadianos, que todos os meses fazem um pé-de-meia com a rigidez de que é algo obrigatório (mentalmente) e que quando querem se despedem e se dão ao luxo de ir passear uns tempos antes de irem à procura de trabalho?! Não percebo.
Só mais um ponto... Sempre andei no ensino público - confesso que quando cheguei à universidade, estatal uma muito prestigiada foi uma fantochada (devido às ditas cunhas!) - mas, hoje, não mandaria um filho para lá. Ninguém manda, só manda quem já nem se pode endividar mais. E é com pena que vou mandar a minha filha mais velha para a 1º classe em Setembro, para uma escola pública, onde a falta de segurança é ultrajante e o grau cultural igual (pelo menos num bairro razoavelmente "bom" de Lisboa, porque aqui, a maioria da dita classe média letrada não faz o mesmo que eu, não tem 3 filhos!, foi uma opção que tomei, da qual não me arrependo mas que tenho que aprender a viver com ela). Tudo o que era público e bom está a desaparecer, digo isto, eu, que já fui feita depois do 25 de Abril! A minha avó faleceu há 3 anos porque a "entupiram" (literalmente) de comprimidos em dose excessiva para aguentar uma lista de espera para radioterapia. Não morreu da doença, dilataram-lhe o coração! Pergunto: é este o direito e o acesso à saúde?! Por mim, teria ido a um sítio particular mas ela acreditava nos valores da Liberdade e na mudança... Se mudou já voltou a mudar....
De sociolocaminhar a 29 de Junho de 2007 às 22:50
Olá, tudo bem ?

Tens toda a razão, no comentário que fazes, de facto existe uma confusão propositada , nas mensagens que nos entram dia a dia pela casa dentro.
Houve um tempo, em que acreditamos que o futuro dos que produzem, a riqueza do mundo, estava em reformulação, nesse tempo falava-se de tempo livre, de tempo de lazer, de fazer do ser humano, um ser de cultura .
entretanto tal como o clima tudo se inverte e , os ideais do sec xix , voltaram a estar na moda ,está em cada um de nós a responsabilidade de recusar esta filosofia , mas a pergunta é, como?se a preocupação primeira de cada um de nós é, lutar pelo que nos é essencial. A subsistência!. As coisas tornam-se assim difíceis, uma vez que, nos falta a motivação para, participar na vida publica. E sem uma envolvência de todos e de cada um,nas definições do futuro,entregamos a nossa vida e o nosso futuro, nas mão dos que pensam o mundo, estando fora da realidade.
E esse caminho é ,o caminho mais perigoso que atravessaremos no pós guerra. Sem classe media não existe, possibilidade de criar um futuro e sem esperança
caminhamos inevitavelmente para a repetição da história .

Comentar post

.mais sobre mim
.pesquisar
 
.Maio 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
.posts recentes

. ...

. Que valores valores

. para todos os que ainda ...

. A ética e a Moral

. Para reflectir

. Bases principais do Pensa...

. Não permitam o "Afundamen...

. A construção a Humana , ...

. Para Reflectir

. Para obter um milhao e qu...

.arquivos

. Maio 2016

. Junho 2015

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Outubro 2011

. Agosto 2011

. Abril 2011

. Agosto 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Junho 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favoritos

. caminhos

. Coisas do sempre e do nu...

. Percursos

. Não podia ser quem Sou

. Da Ribeira da minha terr...

. Prazer ou Nostalgia

. lazer

. Memorias ...

. O Poema e a Musica

. Apareço assim de mansinho

.contador
HTML Counter
Hit Counters
blogs SAPO
.subscrever feeds