Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007
Para um ser humano novo
Os muros deviam ter acabado com a guerra fria
[Joaquim Jorge, Público.pt, 22-08-2007] |

Os muros permitem uma contenção temporal mas não definitiva, tornam-se vulneráveis e um dia desaparecem. Depois da queda do muro de Berlim provocada pelas mudanças políticas no mundo comunista, parece que está na moda a construção de muros, num retrocesso sem precedentes.

O primeiro foi o muro que Israel mandou construir para separar o país dos palestinianos, devido aos atentados bombistas. Depois foram os Estados Unidos, que aprovaram construir um muro de 1200 km, na fronteira do México, para evitar a imigração clandestina.

Em Bagdad, há uma vala de 4 km para separar as comunidades sunitas e xiitas. São alguns exemplos do que se está a passar no mundo inteiro: muros, barricadas, valas, grades, fossos e trincheiras; na América, África,

Ásia e agora na Europa. Esta divisão de países cercando a liberdade é um paradoxo, numa época de globalização: os capitais e as transacções comerciais podem mover-se livremente, porém os seres humanos não. Os muros ressuscitam uma política que criámos e que devia ter acabado com a guerra fria.

Hoje uma atracção turística, a Muralha da China foi erguida no séc. III a.C., para tentar salvaguardar, naquele tempo, o brilhante Império das invasões dos mongóis e de outros povos setentrionais. Sendo a maior muralha de todas, com uma extensão de 6500 km , não conseguiu proteger o seu regime do vigoroso impulso dos vizinhos.

Os muros permitem uma contenção temporal mas não definitiva, tornam-se vulneráveis e um dia desaparecem, sendo destruídos pelos cidadãos. Como diz Federico Mayor Zaragoza, ex-director-geral da UNESCO e presidente da Fundação Cultura pela Paz: "A melhor vala seria um Plano Marshall à escala mundial que impulsionasse o desenvolvimento agrícola, industrial, sanitário, cultural e educativo das zonas pobres e conflituosas do planeta."

Este isolamento claustrofóbico e abusivo de populações que vivem na miséria, sem emprego, em condições sub-humanas mais parece recriar o clima dos campos de concentração.

Recentemente, em Pádua, o presidente da câmara mandou construir um muro metálico no bairro La Sereníssima, habitado por imigrantes africanos infestados de droga, prostituição e violência. A uma escala menor existe a proliferação de condomínios luxuosos.

Como se fosse possível ter uma vida faustosa e de luxúria e cá fora haver gente no limiar da pobreza, a passar fome, excluída e analfabeta. É necessário modificar este estado de coisas: os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Ainda não percebi como não houve um levantamento popular com consequências sociais efectivas.

Por este andar, qualquer dia os nossos governantes mandam construir um muro para os portugueses não poderem ir para Espanha e por essa Europa fora, ficando contagiados com o seu nível de vida, crescimento económico, qualidade de vida. Espanha, aliás, que é só a décima potência mundial e onde começa a verdadeira Europa. Porque Portugal tenta, tenta, mas...

Joaquim Jorge - Biólogo
publicado por sociolocaminhar às 12:56
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