Sábado, 4 de Agosto de 2007
Nem tudo o que parece é

o famoso biodiesel que numa tradução livre para o Português será mais ou menos biogasóleo. De tão famoso que é, penso que a maioria da população desconhece-o, como se fabrica e que implicações poderá ter no futuro, a par de outros biocombustíveis como o bioetanol. O biogasóleo pode dividir-se em 1ª e 2ª geração sendo este último que se produzirá massivamente. Em termos muito simples pode dizer-se que é um produto muito semelhante ao gasóleo derivado do crude (gasóleo mineral), obtido a partir de gordura vegetal ou animal como o óleo virgem de Colza, Girassol , Palma, Rícino ou mesmo de óleos reciclados da fritura dos alimentos. A grande vantagem do segundo em relação ao primeiro será a possibilidade de substituição do gasóleo mineral a 100% sem qualquer alteração dos actuais motores. Relembro que estudos especializados indicavam 20% como limite de mistura do biogasóleo de 1ª geração para salvaguarda dos motores além das dificuldades relacionadas com o elevado ponto de congelação e outras.

O bioetanol é de simples produção através da vulgar fermentação alcoólica e cereais, cana-de-açúcar ou biomassa (aparas de madeira) e destilação dos álcoois obtidos. Pode ser utilizado em qualquer mistura com a gasolina normal. Os motores dos automóveis existentes podem funcionar com uma mistura até 15% de bioetanol combinado com gasolina ou gasóleo, sem ser necessário sofrerem alterações. Isto já acontece no Brasil, onde toda a gasolina vendida tem uma mistura até 24% de etanol ou mesmo puro em veículos com motores flexifuel.  As diferenças mecânicas mais importantes nos veículos do tipo flexi-fuel são o sistema de pré-aquecimento do bloco do motor quando a temperatura ambiente é inferior a 15°C, o mapa de ignição variável que é regulado automaticamente em função da percentagem de gasolina e de bioetanol detectada e a utilização de uma liga muito dura nas válvulas do motor

Em termos da queima dos bioetanol e o biogasóleo representam índices de poluição inferiores aos dos combustíveis tradicionais em termos de emissão de CO2 por atingirem elevadas performances (nº de cetano para biogasóleo e índice de octano para misturas gasolina/bioetanol). Uma mistura de 85% de bioetanol e 15% de gasolina (95 octanas) terá um i.o. de 104. A sua queima é ainda isenta de compostos azotados NOx e sulfurados SOx responsáveis pelas chuvas ácidas. No caso das misturas a redução dos poluentes será na razão directa de incorporação de biocombustível, isto é, maior porção levará a maior redução daqueles.

Após a discussão técnica é importante abordar os biocombustíveis na perspectiva política e da propaganda que alguns sectores interessados na sua produção têm levado a cabo. Hoje em dia sói dizer-se que estamos perante a grande revolução ambiental e a solução para os graves problemas ambientais decorrentes do desenvolvimento desequilibrado do mundo, assente na queima de combustíveis fósseis cujo esgotamento está à vista, contudo, vários perigos se levantam. 1. A afectação de terrenos férteis e recursos escassos como a àgua para as culturas energéticas conjugadas com elevadas margens de comercialização a par da crescente aridez dos solos levarão necessariamente a uma pressão inflacionista nos preços dos alimentos. Ou seja, teremos cada vez menos terrenos para cultivar alimentos e estes serão tendencialmente mais caros. 2. A deriva da nova agricultura energética serve na perfeição os interesses das multinacionais que comercializam as sementes trangénicas e serão mais um passo na proliferação da monocultura em prejuízo da biodiversidade e também contribuirão para o esgotamento dos solos. 3. O incentivo à agricultura intensiva de cereais, cana-de-açúcar e de oleaginosas com especial enfoque no Brasil, Malásia e Indonésia que lideram a produção de biocombustíveis bem como a produção das respectivas matérias-primas. Não será abusivo concluir que assistiremos ao acelerar da desflorestação da Amazónia e das florestas asiáticas que atinge já 20 a 25 mil quilómetros quadrados por ano. 5. A produção dos novos combustíveis poderá numa perspectiva optimista reduzir a dependência do petróleo mas em caso algum conseguirá substituí-lo tais seriam a áreas necessárias para suprir o actual consumo. A União Europeia pretende que o biogasóleo constitua cerca de 5,75% de todo o gasóleo consumido no espaço comunitário, enquanto a Galp traça como objectivo a incorporação de 10% até 2010. Significa portanto que num mercado excedentário em gasolinas e deficitário em gasóleo mineral, é este que determina o consumo de crude. Do ponto de vista prático poderá reduzir o consumo de crude na mesma grandeza isto é, em 10%.O impacto económico desta medida apenas poderá ser avaliado pela comparação do preço do barril de crude com os preços dos óleos que servem de matéria-prima para os biocombustíveis. O barril de crude nunca baixará dos actuais valores ou seja a tendência será para subir e o mesmo se passa com o preço do óleo de colza que subiu 45 por cento em 2005, e depois mais 30 por cento até atingir cerca de 800 dólares por tonelada. Há ainda previsões de outro aumento do preço de cerca de 200 euros por tonelada para o próximo ano devido a uma procura adicional de biodiesel.

 

Em conclusão, os biocombustíveis não resolverão nenhum problema ambiental pela simples razão de que uma efectiva melhoria e redução das emissões gasosas do trânsito automóvel, jamais compensarão os efeitos perniciosos que colocam ao mundo e à Humanidade. Assim, acentuarão a profunda desigualdade que já hoje existe entre países ricos e pobres sem que estes possam resolver os seus problemas alimentares, pelo contrário, os problemas deverão agravar-se.

A actual fase de desenvolvimento do sistema capitalista mundial depara-se com um limite estrutural que é a finitude dos recursos energéticos disponíveis no planeta, constituindo assim um obstáculo ao seu desenvolvimento irracional. Para contornar o problema, encontra uma solução também ela irracional que não é mais que uma fuga para a frente, ou seja, convertemos alimentos em combustível.

 

Relatório do Fundo Monetário internacional sobre evolução dos preços dos óleos vegetais e cereais.

 

publicado por sociolocaminhar às 23:56
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